"Também pudera", dizia ela, "Eu mereci."
Olhava para o copo que se esvaziava cada vez mais rápido, e dizia:
"Eu sabia o que estava fazendo, e eu sabia as consequências desde o princípio."
Enchia o copo, pegava mais um cigarro, pedia fogo pra um estranho qualquer, e dizia:
"Eu não sei o que há comigo, parece que eu gosto de sofrer, de me iludir; eu nunca aprendo."
E olhava para a porta, esperando que ele fosse entrar por ela, mesmo sabendo que ele não iria, pois vê-lo fazia o mundo não parecer tão cinza, nem tão cruel, e dizia:
"Mas se quer saber, cherrie... Eu não me arrependo; nem um pouco."
E ali ela soube que ser tudo aquilo que os outros diziam que ela era, todas as coisas maravilhosas que os outros diziam que ela era, não importava, pois ela sabia que nunca seria sua preferida. Enquanto ele, pra ela, seria sempre o único.
"Mas tudo bem cherrie... Tudo vai ser melhor pela manhã e eu ficarei bem... Eu sempre fico."
E à meia luz do bar que já fechava, enquanto o garçom levantava as cadeiras e limpava o balcão, já quase ao nascer do sol, ela pedia a saideira, e dizia:
"Não se preocupe cherrie, eu não me arrependo... O que seria de mim se eu não morresse de amor de vez em quando, não é mesmo?"
E saía pela rua, com o som de suas botas ecoando no asfalto molhado da rua vazia; vazia de pessoas, vazia de cores, vazia de tudo, assim como ela - exatamente como ela.
E dizia repetidamente pra si mesma
"Você vai ficar bem, cherrie. Você sempre fica."
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